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Parece confuso para sociedade ser uma pessoa que gosta de tecnologia e ainda sim ser crítico a ela. Tenho tido essa posição crítica as tecnologias do momento já faz um tempo e sinto que muitas vezes é como se me vissem como uma pessoa que apenas tem um certo rancor retrogrado e uma falta de habilidade em enxergar as maravilhas de uma nova tecnologia.

Toda crítica a I.A. parece sempre haver 2 lados: ou eu devo ama-la e acreditar que ela é a melhor coisa que surgiu no mundo nos últimos anos e que precisa estar na minha vida 24h por dia ou eu sou um ludista que hipervaloriza o saber técnico e manual, que faz reserva de mercado e tem um olhar negativo sobre tudo que é novo. Existem muitos mais lugares possíveis do que esses 2 lados e pra mim é entre esses lugares que podem sim surgir coisas melhores.

Como uma pessoa que tem uma prática intimamente ligada ao fazer digital eu sempre fui crítico a um posicionamento que hipervaloriza o fazer o manual. A prática digital, com todos os seus possíveis atalhos, foi o que me trouxe para a produção artística. Não acho que fazer algo com lápis em um papel é um processo melhor e superior que abrir qualquer programa de computador ou que a dificuldade de fazer um trabalho como o única forma de qualificar uma obra. Você não precisa de anos de experiência para fazer um trabalho criativo. Não acredito em nenhuma hierarquização de conhecimento ou tecnologia.

Tenho incorporado sim na minha prática algumas ferramentas de “I.A.”, principalmente assistentes de código e no meu trabalho comercial em rotinas de tratamento de imagem, e entendo claramente seu potencial no dia a dia de trabalho. Também tenho consciência que usamos esse tipo de tecnologia indiferente da nossa vontade há muito tempo, desde uma busca na internet até o recorte de uma imagem no Photoshop. Mas não é por usar ou ser forçado a usar esse tipo de tecnologia que devo abraçar ideias que muitas vezes são meros discursos corporativos.

No mundo atual ferramentas não são apenas ferramentas, ainda mais quando falamos em tecnologia, existe todo um ecossistema que gira em torno dessas ferramentas que são extremamente problemáticos e não tem otimismo em relação as cabeças que hoje tem um grande poder de decisão sobre pra onde vai o dinheiro.

A I.A. como está sendo inserida nas nossas vidas não é uma tecnologia inevitável, ela é acima de tudo o desejo de grandes corporações por lucro. Acreditar que sempre precisamos de uma tecnologia nova para nos salvar, não resolveu nenhum dos nossos problemas reais. Diziam que o capitalismo de plataforma nos moldes de Ifoods e Ubers era algo incrível, conectava quem poderia oferecer um serviço com quem estava querendo consumir e hoje esta mais claro do que tudo que ele resultou muito mais em uma lógica e estratégia de precarização de trabalho do que outra coisa. O futuro da interação de acordo com o Facebook era o “metaverso”, hoje o espaço de realidade virtual criado por eles não existe mais e só sobrou o Meta. Será mesmo então a “I.A.” a nossa salvação definitiva?

A hiper produtividade induzida pela I.A. ao invés de nos dar mais tempo de vida para usufruir do ócio nos dá mais demanda de trabalho. Quem já estava sufocado com prazos absurdos de urgências infundadas hoje é pressionado a produzir mais e depender de mais serviços pagos.

É necessário que a consciência sobre o uso dessas ferramentas saiam das notas de rodapé e virem cotidiano. Acho que é preciso ter a noção que pedir uma imagem, texto, código, resposta ou qualquer outra coisa para uma I.A. não é o mesmo que produzi-la, é necessário entender o que se ganha e o que se perde com isso e a sua relação com isso. Existem várias formas de produzir imagens, textos, código, respostas e quanto mais experimentarmos melhor é a nossa experiência com o mundo. Não acho que é um certo e errado, é mais uma consciência sobre aquilo que está sendo escolhido e uma transparência no discurso.

Eu não vou abraçar e endossar qualquer nova tendência inevitável da tecnologia, pois como já disse uma vez por aqui, sei que como designer e artista muitas vezes funcionamos como validadores dos discursos das gigantes da tecnologia e no fim a gente sabe que ganha e quem perde.

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